Entrevista – Fábio Lucindo – SANA 2013

Como você ganhou o Ash para dublar? Como foi fazer o teste para conseguir esse personagem?

– Normalmente quando vamos fazer alguma série, temos que fazer esse teste, que é dublar trechos ou algumas cenas do desenho em questão. Eu fiz o teste e fui aprovado. Gravei uma cena do primeiro episódio, assim como outros atores, garotos da minha idade, e depois recebi uma notícia de que eu tinha sido classificado e que ia começar a fazer a voz do Ash. Fiz um teste como qualquer outro que a gente faz. E nem sempre a gente faz teste. Por exemplo, o Kuririn (Dragon Ball) eu não fiz teste, Shinji (Evangelion) também não, Mirok (Inu Yasha) também não… é uma escalação direta. Fiz teste pro Ichigo (Bleach) e pro Kiba (Naruto), os outros foram mais escalação direta.

Você já está há vários anos dublando Ash, não enche ficar dublando o mesmo personagem há tanto tempo?

– Enche. Eu tive uma crise com Pokémon aos 17-19 anos, era uma época que eu ia dublar bem contrariado, achava bem chato. Teve altos e baixos, mas graças a Deus nós superamos, hoje eu já vejo com outro olhar. Depois que eu comecei a dirigir Pokémon eu tive uma outra maneira de olhar o trabalho. Como diretor você tem um poder de criação muito maior, você seleciona quem vai dublar quem, você mexe no texto de todos os personagens, não só do seu. Agora eu já vou com outro olhar, mudou para melhor, acho que hoje eu faço um trabalho mais completo de quando eu tinha 14 anos e era fã, muito melhor de quando eu tinha 17 e fazia sem querer… hoje eu acho que é a melhor fase.

Como é fazer a voz de um personagem que não envelhece nunca, enquanto você envelhece e amadurece a voz?

– Se você pegar o 1º áudio de Pokémon e o 16º, existe uma diferença bem grande, mas como a gente vai vendo aos poucos e tem intervalos, acaba parecendo que é a mesma voz. Ainda hoje passa na Rede TV! as primeiras temporadas, aquela dublagem hoje para mim é irritante. A gente não grava o ano inteiro. Chega um lote de uns 52 episódios e a gente vai dublando de 5 em 5, eu fico de 2 a 3 meses gravando, depois fico os outros 9 meses do ano sem nem saber de Pokémon. Quando eu retomo no ano seguinte, o que eu faço é ouvir uma referência do ano anterior, escutar um trecho do último episódio do último ano gravado e tentar me aproximar o máximo possível disso. Esse timbre do Ash que é muito comentando, parece que eu estou forçando, mas não me machuca, virou uma técnica que acabei desenvolvendo. Se você me perguntar eu não vou saber explicar como eu faço.

Nessa mudança de voz, pensaram em te trocar, você quis desistir de ser o Ash?

– Eu não quis desistir, e se pensaram em me trocar não me contaram. Chega uma hora que a voz começa a engrossar. No caso do Ash, ele não envelhece, mas a gente dubla personagens que tem a mesma faixa etária, quando eu tinha 14 anos eu era colocado para fazer um personagem de 14 anos provavelmente pelo nível de voz. Se por acaso a voz não estar mais condizendo com a imagem dos personagens, então começa a ter isso.

Qual a diferença de dublar o Ash nos filmes para a série? Você prefere fazer no filme ou no seriado?

– A forma de fazer é tudo igual. Sou indiferente. A diferença normalmente é que no filme o pokémon é o protagonista, não é o Ash. Tem vários momentos nos filmes onde se fica uns 5 ou 6 minutos sem nenhum personagem falar nada. Você apenas vê os pokémons se relacionando, fazendo coisas e emitindo os seus sons. Isso eu acho muito legal. E quando eles fazem o filme no Japão o cuidado é outro, tudo brilha mais, é mais colorido. Como é cinema, acho que o pessoal faz de uma outra forma, mas no ato de gravar é exatamente a mesma coisa. Eu gosto dos filmes justamente por isso, o Ash não é tão protagonista, a atenção principal se volta aos pokémons, e tem essa possibilidade de cores… parece que quando tem alguma inovação técnica e eles descobrem que dá para animar de tal jeito, eles investem, fazem um filme e depois isso é jogado para série. Parece que eles fazem isso. Os filmes sempre apresentam alguma coisa, um movimento de câmera, alguma coisa de cor, que é diferente. Você percebe que fizeram um trabalho legal no filme que nunca teve na série. Mais tarde, na próxima temporada, você nota que isso acaba sendo absorvido pela série. Eu acho que quando eles inovam na maneira de animar, eles fazem um longa e depois jogam isso para a série.


O primeiro filme teve cenas marcantes na infância de todo mundo, como por exemplo quando o Ash virou pedra. Tiveram algumas outras cenas marcantes de que você se lembra?

– Tem a despedida da Butterfree que marcou bastante. Eu tenho isso com o Kuririn também, as mortes do Kuririn foram bem difíceis (risos). O final de Evangelion que eu assisto 3 vezes e não entendo (risos), mas em Pokémon particularmente… acho que quando acontecem certas coisas com o Pikachu é complicado, ele é um personagem que tem muito carisma, me toca mais nesses momentos.

Uma nova geração vai estrear no Japão e mais uma leva de pokémons novos irão aparecer, alguns deles muito criticados pelos fãs. O que você acha de sempre ter novas gerações e nunca acabar?

– Acho que para a série é bom que ela tenha essa longevidade, que ela seja eterna. Isso é sinal de que ela é boa. Essa inovação se faz necessária justamente para que ela seja tão longa. Se a gente tivesse até hoje Ash, Misty e Brock, e 150 pokémons, eu acho que eu não aguentaria assistir. Precisa dessa renovação e justamente esse estranhamento, é ótimo que as pessoas não gostem e reclamem disso, porque a gente tá falando disso. Vai ter gente que vai falar que tal Pokémon era melhor, vai ter o cara que vai deixar de assistir Pokémon por causa disso, mas vai ter três outras pessoas que vão começar a assistir Pokémon por causa disso. Acho que é isso que alimenta a série e faz ela ser tão longa. Justamente essa renovação, tanto dos companheiros de jornada do Ash quanto dos pokémons. Acho que para a coisa durar tanto tempo ela precisa se renovar e se transformar.

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Robert

Webmaster da Pokémon Mythology. Responsável pela redação e administração. Escreve a maior parte do conteúdo do site, em especial os detonados.

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