Como é feita uma dublagem de anime no Japão?

Autor: Renato Siqueira

Quando fui ao Japão no ano passado tive a oportunidade de ver a dublagem de um dos animes mais famosos de lá, a nova fase da série Pokémon.

Um dos meus amigos conhecia a dubladora do personagem principal que no Japão se chama Satoshi e que no resto do mundo (incluindo o Brasil) chama-se Ash Ketchum.
No Japão, os dubladores são quase tão famosos quanto os próprios personagens. Eles participam de novelas, filmes, comerciais e também lançam cds com músicas que são vendidas por todo o arquipélago. Com essa influência vinda do Japão, os fãs brasileiros também passaram a dar mais valor ao trabalho dos dubladores de desenhos animados por aqui e quase sempre eles são convidados para os eventos brasileiros onde dão autógrafos, tiram fotos e criam vínculos que os aproximam mais dos fãs.

A 声優(Seiyu) que nos convidou para a dublagem de Pokémon se chama Rica Matsumoto e como manda o figurino além de dubladora, ela também é cantora e atriz. O papel em Pokémon lhe rendeu muita fama e é por isso que ela não larga o personagem de jeito nenhum. Ela faz a voz de Satoshi desde 1999 quando o anime foi lançado na tv japonesa, baseado em um game da Nintendo de 1996. Aqui no Brasil a febre Pokémon só pegou fogo em 2001 com a chegada dos games e do anime. Nesta época eu trabalhava na mesma editora brasileira que lançou a revista Pokémon Club, especializada em Pokémon, que em sua primeira edição vendeu mais de 300 mil exemplares, um feito espantoso para uma revista desse tipo no Brasil. Atualmente, a série já não goza de toda a fama do passado por aqui, mas no Japão ainda tem um público muito grande, o que garante a produção do desenho e dos games.

Bom, mas vamos falar da visita ao estúdio.
No meio da tarde nos arredores de Shibuya (渋谷), a empresária da Rica veio nos pegar em uma estação de trem e nos levou ao estúdio que era bem próximo. Ao entrar no local tive que tirar os sapatos e colocar aqueles chinelinhos SurippaPokémon. O melhor foi notar que havia uma sinergia entre os atores. Alguns dias antes da dublagem eles haviam se encontrado para ensaiar o roteiro daquele episódio especificamente. Antes de dublarem o episódio definitivamente, eles ainda perderam 30 minutos fazendo mais um ensaio, só que desta vez usando o desenho animado exibido nos monitores. E este desenho animado ainda não estava completamente finalizado porque ainda poderiam haver mudanças na animação e no roteiro, se algo não agradasse.

(スリッパ). Dentro de uma sala pequena estavam os seis atores e atrizes da série batendo papo e definindo os últimos detalhes da gravação. Eles foram muito gentis em me explicar o que eles estavam fazendo. De posse de um roteiro, eles deveriam dublar em poucas horas o episódio que ia ao ar na tv japonesa duas semanas depois. Além de uma sala técnica onde ficavam os técnicos de som, diretor, roteirista e produtor executivo da série, ainda havia a sala da captação de voz com cinco microfones. Foi dentro desta sala que todos os dubladores fizeram suas vozes, ao mesmo tempo, revezando-se nos microfones. Enquanto alguns faziam as falas dos personagens, outros faziam os barulhos dos

Enquanto acontecia a dublagem, eu estava sentado na sala técnica ao lado do diretor, do roteirista e do produtor executivo e eles conversavam sobre alterações nas falas e na animação. Em certos momentos eles davam pequenas risadas e concordavam entre si: “Essa fala ficou muito boa”. Eu não sabia exatamente se eu podia filmar dentro do local, mas com a câmera digital eu consegui filmar um pouquinho da sala técnica, da dublagem e dos monitores. Basta clicar nos links abaixo:

No Brasil em 2004 eu tive a oportunidade de ser o assistente de direção do anime Digimon 4 (Digimon Frontier no original) e acabei conhecendo um pouco de como é feita a dublagem brasileira de um desenho animado japonês. Sabendo um pouquinho de como são feitas essas dublagens no Japão e no Brasil, acho que posso tecer algumas pequenas comparações. Primeiro, que no estúdio de dublagem nacional, os atores e atrizes fazem suas vozes em horários e estúdios separados e geralmente estudam os roteiros no momento da gravação. Ou seja, raramente acontecem aqueles encontros com outros dubladores para definir os parâmetros da atuação. Além disso, no caso dos animes, o áudio em japonês já está lá e os dubladores precisam encontrar um timing para conseguirem encaixar as vozes em português, e tenho que concordar que esta parte é bastante complicada.
Isso sem falar que não ganham o mesmo salário de um dublador japonês e quando reivindicam maiores pagamentos acabam sendo substituídos nas séries ou filmes que estão dublando, descaracterizando os personagens. Além disso, somente de vez em quando os dubladores têm seus nomes divulgados nas produções em que participam. É um trabalho bastante árduo, e preciso concordar que dublador no Brasil sofre, mas mesmo assim consegue fazer um bom trabalho. É isso que faz dublagem brasileira estar entre as melhores do mundo.

Dicionário:

声優 (Seiyu): Mistura de dois ideogramas japoneses. O primeiro 声 (koe) que significa “voz” e o outro que forma as palavras 俳優 (Haiyu) que significa ator e 女優 (Joiyu), atriz. Os dois ideogramas juntos formam o sentido de “Atriz ou ator de voz” definindo a palavra dublador.
アフレコ (Afureko): A sessão para a produção de dublagem de um filme, novela, desenho animado, etc.
スリッパ(Surippa): Aquelas sandálias que se usam dentro das casas japonesas, depois de tirar os sapatos.

Créditos: Centenário da Imigração Japonesa

Link de origem: http://www.japao100.com.br/blog_culturapop/2008/02/10/como-e-feita-uma-dublagem-de-anime-no-japao/

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Robert

Webmaster da Pokémon Mythology. Responsável pela redação e administração. Escreve a maior parte do conteúdo do site, em especial os detonados.

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